quinta-feira, 31 de outubro de 2013

"Carolina E Suas Angustias"


Sentada à beira da praia em mais um dia que se inicia, Carolina pensava no que fazer para amenizar a angustia de não ter mais esperança quanto a dias melhores. Eis que surge no horizonte várias caravelas abarrotadas de gente e seu coração palpitou fortemente causando-lhe impulsos fortíssimos, trazendo uma certa ansiedade para seu íntimo. Tratava-se de pessoas vindas de Terras longínquas. Ancorados ali, o "povo que veio do mar", e pelo fato de terem trazido costumes e culturas diversas bastante diferentes das que ela convivia, certamente que houve um choque de culturas e aí surgia, também, uma nova espécie de angustia: A de ter que se acostumar a uma nova forma de viver, com parte daquela gente, que vinha em busca de novas descobertas. Mas, o que Carolina estava pensando sobre tudo aquilo? Ninguém sai de seus costumes e tem os mesmos aviltados de maneira abrupta e não se indigna, e com a menina sonhadora e tão acostumada a viver de sonhos, não seria diferente. Estava se iniciando ali um processo além da angustia: Uma possível neurose obsessiva! Observou-se que diante das suas poucas chances de saída da tal imposição, parecia ser algo que viria pra ficar.
Carolina cresceu e viu sua juventude ser dirigida por culturas análogas as suas e assim se rendeu aqueles estímulos e, além de se render, adotou hábitos e costumes contrários aos seus e a partir daí fundiram-se as culturas e como não poderia ser diferente, os atritos foram inevitáveis. Mas carolina não se rendeu às frustrações e logo assumiu uma nova postura, adotada por toda sua família e seu povo, dando assim continuidade ao que seria, num futuro bem próximo, o que chamamos de "aprisionamento social". Ela engravidou e seus filhos demostravam na própria constituição física as "marcas" não só da diversidade cultural mas também biológica, e aí entrou outro componente: O da vaidade. Carolina se angustiava, novamente, por uma tentativa de tentar entender os mecanismos dessa diversidade de raças. Tudo era muito novo e assim viu em seus filhos a possibilidade de "curtir" a sensação de serem eles "diferentes". Seus filhos possuíam olhos azuis, pele clara e cabelos amarelos. Ela seguiu vivendo ora feliz, ora triste e angustiada porque a cultura era vasta e viria aí, também, os conceitos religiosos que a tornavam uma pessoa confusa devido ao cerceamento das suas concepções e ao fato dela não entender o porque de ter que seguir o que achava absurdo. Os valores passados, para ela, eram contraditórios mas ainda se via submissa simplesmente por causa das raízes fortíssimas que este segmento social trazia e, diante disso, tornava-se mais uma vítima de tal engendramento. Foi aí que outra angustia estava batendo à porta do seu coração: O que fazer se todos ao seu redor se rendiam aos conceitos absurdos, segundo as suas convicções, e por isso se via atrelada e de "mãos amarradas" para agir? Seguiu, mesmo diante dos conflitos internos, estimulados pelos externos, e foi então que se viu envelhecer, de ver seus sonhos se esvaziando e ficando abandonados por causa de uma sociedade da qual ela fazia parte de forma ativa, tornando suas angustias numa espécie de acúmulos de insatisfações crônicas. 
Em sua velhice teve que se deparar com as dificuldades extremas quanto ao posicionamento político desta mesma sociedade que ela ajudou a criar e aí se fechou pra vida por causa de mais uma angustia, que era a de ver tantos anos de luta serem jogados fora, diante de mais um infortúnio em sua trajetória. Ela notou, após pedir ajuda, que estava diante de um somatório de angustias acumuladas ao longo de sua vida e foi aí que resolveu fazer algo em prol dos que ainda teriam tempo de reagir, objetivando, através do que entendia ser uma ajuda social, que foi escrever, para liberar a carga excessiva de angustias acumuladas. Deus certo. A partir do instante em que percebeu que as suas ideias deram certo, iniciou um processo de aplicação das suas experiências e, como consequência, viu pessoas aderindo aos seus postulados e aí foi realmente liberando os sentimentos aprisionantes que guardava a tempos. Sentiu, como forma de despedida das angustias, que poderia ter feito isso antes mas, já tomada de coerência e experiências diversas de vida, despediu-se de todos os males da alma.
Desta forma ela terminou seu livro, dando continuidade à vários outros e fechou seus olhos diante da partida para uma nova etapa de vida, que foi a sua libertação através da morte do corpo, carregando consigo as informações, descobertas e experiências adquiridas ao longo de uma jornada estressante mas que no final teve o seu reconhecimento por parte da própria vida, mesmo tendo carregado o peso das iniquidades, por vezes, e assim conseguir admirar as belezas das angustias trabalhadas.

Iran Damasceno.


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