terça-feira, 21 de outubro de 2014

"Augusta E Suas Angustias"



"O passado nos condena quando achamos que devemos vivenciá-lo como uma fonte de referencial exato. Não dá, pois ele já se foi e assim o que seria possível (?) é a retirada do que foi bom e aproveitável". Iran.



... Mas, Augusta acordou não muito bem, como era quase de costume, e aí resolveu ligar para Marcos, amigo de longa data e que quase não via mais. A partir daí consolidou algo que não conseguia desde a última vez em que socialmente conviveu. Foi, juntamente com o amigo, a uma festa a fantasia e lá começou a se comportar como se estivesse no divã do seu analista e o amigo Marcos, o seu ouvinte. Tudo bem, sentiu-se melhor e aquele momento serviu-lhe de retomada ao passado e assim as memórias se fizeram presentes de forma avassaladora, tanto é que, ao contrário do que seu amigo pensava, sentiu-se muito bem. É como se estivesse revivendo momentos que teve e ficaram lá atrás, deixando-a extasiada. Seria uma forma de tentar se livrar do que a incomodava? Talvez, pois as dores que sentia na alma pela ausência dos seus entes queridos e dos momentos que construíram sua personalidade eram por demais vivos em sua mente e, consequentemente, em seu comportamento. estaria Augusta presa em seu passado? Talvez...
Marcos, atento a tudo, até porque conhecia muito bem a amiga de longa data, resolveu dar prosseguimento as suas fantasias (?) e a partir de então viu que a "estratégia" estava dando certo, tanto é que, em dado momento, ela resolveu ir para o terraço do prédio onde ocorria a festa para poder ter uma visão periférica do bairro onde havia vivido os melhores anos de sua vida. Deu certo, mais uma vez, e assim o passado estava posto à mesa das conversações, ainda que em momento, para muitos, não propicio. Marcos estava para ela assim como um analista para seu paciente, pois não questionava absolutamente nada, apenas a ouvia e ajudava Augusta a desatar os nós das suas inconsciências. Obteve um certo êxito mas, como estavam em uma festa, o tempo se passou e a mesma já ia acabar, Mesmo assim ela queria mais devido ao bem que aquele momento e aquela conversa estava fazendo ao seu íntimo. então saíram dali e pararam numa praça onde pode recordar as suas brincadeiras de infância com seu saudoso pai e aí, diante desse estímulo dado em seu inconsciente, pode deixar aflorar quase todas as suas angustias que acabaram aliviando seu coração tão apertado pela saudade que, em dados momentos, nem ela mesma sabia dizer do que era. Marcos, entendendo que era o momento de intervir no monólogo, pois somente Augusta falava, deu início a uma série de questionamentos afim de ajudá-la ainda mais. E deu certo, tanto é que as lágrimas correram eu seu rosto e aí Augusta entendeu que poderia, diante do amigo ávido e atento por saber no que poderia ajudá-la, a falar sobre o que a incomodava. Abriu seu coração e falou que o que mais a incomodava era ver que as coisas estavam fora do lugar não por pensar que as pessoas deveriam ser como a mesma pensava, mas pelo simples fato de se sentir só e assim se pegar as lembranças do que viveu de bom, como uma forma de lenitivo para acalentar as suas dores. Nada que um simples aluno das ideias psicanalíticas de Freud não pudessem entender, pois a dor que aquela mulher linda de sonhos transbordantes queria, era carinho e atenção.
Mas, algo estava despertando nela, ao sentir-se aliviada, que surpreendeu a Marcos, ou seja, ao enxugar as lágrimas, perguntou ao amigo mais que querido o que ele estava sentindo naquele momento e foi então que veio a surpresa: Marcos também estava emocionado devido a estar passando pelo mesmo que Augusta, apenas resolveu ouvi-la para saber se os seus descontentamentos não eram impressão ou meninice de sua parte. Aí as posições se inverteram e Augusta passou de "paciente" a "analista" mas, isso, já é para outro momento...

Ambos saíram dali, felizes da vida, mas Augusta foi bastante categórica em dizer que no próximo encontro seria Marcos quem iria falar e ele, sem pestanejar, disse-lhe que não via a hora de poder desabafar com a amiga que o estava, também, ajudando-o.

Iran Damasceno.

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