Com quantos paus se faz uma canoa? Não sei, até porque não é comum aqui na cidade grande fazermos canoas, respondeu Sr Belarmino ao ser contestado por um rapaz de 30 anos de idade, torcedor do Flamengo. Sr Belarmino é carioca de nascimento, frequentador do Maracanã, acompanha desfiles de Carnaval desde a década de 1960, católico fervoroso e assiste novela todos os dias mas, o que ele não esperava era deparar-se com um rapaz, que tinha idade de ser seu neto, contestando-lhe as críticas em relação ao que ele entendia estar errado. O rapaz, que aproximou-se dele e ambos iniciaram uma conversa amigável, porém, em discordância quanto aos pontos de vista, achou que Belarmino era muito saudosista e colocou a importância de jogar fora as coisas velhas que não faziam mais sentido nos tempos atuais como por exemplo roupas ultrapassadas, carros com motor com carburador, futebol de toques, músicas antigas... Belarmino foi ouvindo e deixando o rapaz se expressar de forma veemente até que pediu a palavra e perguntou qual era o seu grau de instrução, recebendo como resposta nível superior em andamento, na área do direito, feito isso, ele iniciou uma série de questionamentos de um "velho" homem que trabalhou na rede ferroviária durante 35 anos, teve um fusca por mais de 20 anos, usa calça de tergal até hoje, assistia a Pelé, Garrincha e Zico no Maracanã em uma época em que cabiam 150 mil pessoas e que tem como um dos maiores cantores de todos os tempos o saudoso Nelson Gonçalves, o seguinte: Sua geração tem carro com injeção eletrônica e saem dos bailes embriagados deparando-se com a morte todos os dias, usam roupas da moda e são incapazes de se mobilizarem, um dia que seja, para levar alimentos a um orfanato, por exemplo, ouvem um tal de "tecno" e um pior ainda chamado "funk", se sacodem o tempo todo, se drogam, se embriagam, transam com as garotas dentro do baile ou na calçada e, o pior, são capazes de conceder ao Ronaldinho Gaúcho uma medalha de cidadão Carioca após terem demitido um dos maiores ídolos do futebol brasileiro e o maior da história de um clube que tem mais de 35 milhões de torcedores no Brasil, que é o Flamengo. Refiro-me a um rapaz que vi crescer dentro da Gávea, franzino, sem corpo para aguentar as porradas dos grandalhões desajeitados, que tinha que pegar três conduções para chegar ao treino, que cresceu levando o nome do Flamengo para o mundo, deu títulos importantíssimos que talvez levem décadas para conseguirem novamente, é carismático e flamenguista de coração, sabe de quem estou falando? O rapaz boquiaberto, respondeu: Claro que sei: É o Zico, não é? Sim, respondeu Belarmino mais calmo, é ele mesmo, só que o Zico que você não conheceu e não conhece porque está muito atarefado com as novas rodas que pretende colocar em seu carro com injeção eletrônica, que não percebe porque esta daltônico com as cores exuberantes das suas roupas modernas, porque está, também, admirado com as porradas e correrias dos volantes "modernos", e não consegue ouvir sua voz na TV porque está surdo com a barulheira do funk que ouve constantemente, anestesiando sua mente e restringindo sua capacidade de observação. É ele sim, o Zico eterno que vocês, flamenguistas, estão desprezando por causa da famigerada ânsia pelo moderno que somente as pessoas materialistas e ditas como "modernas" entendem.
Recomendo à todos vocês, "flamenguistas de coração", conhecerem e interpretarem a frase eterna, do também eterno, jornalista Nelson Rodrigues, que tem tudo a ver com esse tipo de personalidade:
"Toda a unanimidade é burra".
Iran Damasceno.
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